A imaginação encontra-se em crise? Pelo menos a confiar no neurocientista Sidarta Ribeiro, a dimensão onírica de nossa existência sofre uma séria ameaça. Entre outros fatores, a aceleração vertiginosa do tempo num dia a dia sempre mais controlado pelo universo digital e a crescente dependência das redes sociais teriam levado ao desprestígio do sonho enquanto matéria de convivência e de autoconhecimento. José do Egito algum seria possível nesse horizonte; Vincenzo Bellini jamais teria composto a ópera La sonnambula; circunstância ainda mais dramática, sem a centralidade dos sonhos na interpretação do inconsciente, Sigmund Freud provavelmente seria hoje um dos tantos célebres anônimos do passado. Nesse diapasão, qual o estatuto da imaginação num mundo saturado de imagens numa proporção inassimilável para a cognição humana?
Nesta conversa, proponho pensar a questão por meio da combinação de Henrique V, peça de William Shakespeare, La invención de Morel, Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, o romance de Adolfo Bioy Casares, e Until the End of the World, filme de Wim Wenders. Um tema permite essa associação: as imagens, sua ausência ou seu excesso, como um problema potencial para a imaginação e o universo onírico.
O mote que perseguirei foi definido no prólogo do III Ato de Henrique V:
(….) Still be kind,
And eke out our performance with your mind