Recuperando a importância da imaginação para a determinação da loucura, particularmente no século XVI. Ainda que Foucault tenha privilegiado a importância de Descartes e das políticas de individualização do trabalho e do direito para definir o estatuto de desrazão da loucura na modernidade, há uma tradição alternativa, compreendendo Tereza Dávila e Pascal, que insistiu na ideia de que a “imaginação é a louca da casa”. As duas abordagens sobre a participação da imaginação na loucura estão presentes em Orlando Furioso, lunático por excesso de imaginação, furioso porque uma parte de seu juízo foi sequestrada. O século XVIII expande a associação entre loucura a imaginação, a partir do imaginário político do déspota oriental, cuja desmesura no exercício do poder espelha sua sexualidade sem limites. Surge assim uma constelação na qual imagem, imaginação e imaginário, combinam-se com realidade, verdade e crença, na forma da ilusão, do erro e da mentira. Condição pela qual a loucura se dividirá desde então entre cognição, moralidade e erotismo estético. Propomos então que quando uma imagem se separa do trabalho da imaginação, como constelação, como movimento articulado com outras imagens, temos uma patologia do imaginário. Tentamos mostrar em seguida como a psicopatologia hoje predominante, expulsou a imaginação, ora diluindo-a entre todos os transtornos, ora mobilizando uma semiologia de todas as faculdades mentais (pensamento, linguagem humor, memória) a exceção da imaginação. Mobilizamos contra esta tendência a ancestral ideia da imaginação como louca da casa, retomada pelos alienistas, redesenhada pelos psicanalistas e recentemente refundada pela antropologia pós-estruturalista, com a ideia de perspectivismo ameríndio. Observamos ainda que a loucura como patologia do imaginário, uma vez excluída da perspectiva clínica, retorna de modo sistemático e repetitivo na interpretação de nossa situação ético política. Quando o senso semi-especializado mobiliza categorias como loucura, paranoia e histeria para falar de nossos novos líderes fascistas, isso parece acusar, ainda que involuntariamente, o sequestro da imaginação. Como se a imaginação tivesse passado de louca da casa para chefe suprema dos povos colonizados.