Abstração, figuração do comum e a forma de vida dos humanos

Renato Lessa

“A fantasia tem horror ao vácuo”
António Vieira 
(Elogio da descrença, Lajes do Pico, Açores: 
Companhia das Ilhas, 2022, p. 27)

O tema da abstração, em suas implicações para os modos de conceber a sociabilidade e a vida pública, é um elemento fulcral da filosofia política. O juízo aplica-se tanto à dimensão intrínseca e invariante daquela modalidade imaginária, quanto a seus aspectos substantivos, presentes nas variações que se espraiaram na longa duração de sua história. Observar sua variação, sem se dar conta do que nela permanece como condição de possibilidade, é como “descifrar signos sin ser sabio competente”, como há muito dizia a poeta chilena Violeta Parra. 

O trabalho da abstração é o que confere à filosofia política aquela condição básica e alguma unidade na diferença. Julgo ser essa uma das implicações de um juízo há muito feito pelo filósofo político norte-americano Sheldon Wolin (1922-2015), em livro de 1960, ao definir a filosofia política como uma “tradição de discurso”. Seus conteúdos contingentes são motivados, por certo, por circunstâncias particulares, mas o elemento abstrato que a caracteriza não tem ali endereço originário, já que sua presença é requisito lógico para que haja alguma filosofia da política. Sem tal abstração, restar-nos-iam variações de uma ciência do concreto, sem fumos de magia e de encantamento com a singularidade das coisas, aderida à positividade mesma dos fatos, representados como “dados” sujeitos a “coletas” ou, em modo eufórico e solene, como “a empiria”. 

Tal movimento, típico de uma “era dos fatos” (Paul Valéry), possui requisitos mais que suficientes à satisfação do logos, mas incapaz de afetar o pathos, uma exigência que se apresenta quando flexionamos, com ânimo não inocente, o significante “política”. Julgar a filosofia política elucidável por remissão a circunstâncias que lhe são exteriores significa reduzi-la ao estatuto dos fatos desprovidos de metafísica e figurados como “variáveis objetivas de contexto”. Por certo, parte da potência criativa da imaginação filosófico-política se apresenta no modo pelo qual afeta os fatos, tendo, pois, parte com os mesmos. A filosofia política, tal como a filosofia em geral, tem por principal “contexto” sua própria história (Martial Gueroult), através de muitos empenhos de abstração, inscritos no tão ilimitado quanto insolúvel “conflito das filosofias” (Porchat Pereira). Importa, por muitas razões, refletir sobre a relevância do engenho um tanto esquecido da abstração, como potência de invenção da forma de vida dos humanos. Ultrapassar, enfim, a fixação no idêntico pela ficção do comum.

Tomo aqui a ideia de abstração como processo de elaboração e expressão simbólicas – sem excluir para tal a presença de uma retaguarda antropológica –, por meio do qual acréscimos imaginários impõem-se ao brutalismo das coisas em si mesmas, algo finamente declinado pelo filósofo alemão Hans Blumenberg (1920-1996) como um insuportável “absolutismo do real” e, antes de si, pelo poeta italiano Giacomo Leopardi (1798-1837) como “il brutto potere”, ao referir-se à natureza. Algo que parece, ainda, estar implicado na expressão posta por Judith Butler, em diálogo notável com Fréderic Worms (Le vivable et l’invivable, 2021) das “vidas invivíveis”. Ainda que referida a formas específicas de vida, sofredoras prioritárias de práticas de violência e exclusão, a expressão põe em movimento um substrato de, digamos, “invivibilidade” que, a meu juízo, indica um âmbito mais geral e convergente com as intuições de Leopardi e Blumenberg. Uma extensão de significado que permite subscrever que o “absolutismo do real” ou, simplesmente, o “real” – como desenho geral de mundos desprovidos de formas – seja “invivível.

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