Senso comum versus senso da comunidade: a disputa pelo imaginário político na era da normalização da extrema-direita

Thomás Zicman de Barros

A extrema-direita parece hoje a verdadeira dona da imaginação política. Ocupa o debate público e molda o que pode ou não ser dito — e ainda faz parecer que tudo isso é “natural”. Seu trunfo? Apelar a um pretenso “senso comum” ou “bom senso”, apresentado como neutro, universal, uma evidência óbvia da realidade. Questioná-lo? Coisa de loucos ou irresponsáveis. Afinal, ir contra o “bom senso” seria empurrar a sociedade rumo ao abismo. Mas a história é outra: esse “senso comum” é tudo, menos natural. É uma construção — trabalhada, reproduzida, naturalizada. Em termos gramscianos, o “senso comum” é hegemonia em ação: um imaginário dominante disfarçado de banalidade cotidiana.

Esta comunicação tem dois objetivos. Primeiro, compreender como a extrema-direita fabrica e dissemina um novo “senso comum” reacionário. Segundo — e mais importante —, pensar em alternativas. Como esboçar outros “sensos comuns”? Como reinventar o óbvio? A aposta aqui é em um senso comum crítico e emancipador, capaz de romper a normalização do reacionarismo. Nesse sentido, Hannah Arendt e sua ideia de “senso da comunidade” oferecem uma via possível: uma noção que convoca o exercício do juízo, amplia a imaginação e reintroduz o estranhamento diante do mundo.

A normalização da extrema-direita não se limita à suavização de sua brutalidade. O verdadeiro trunfo está na manutenção do verniz da ruptura. Como dizia um polemista há dez anos, a extrema-direita se tornou “festiva”. No novo ambiente de redes digitais, consegue aparecer como dando voz aos invisíveis. Mesmo quando adota tons mais brandos, segue operando como uma força que promete subversão, destruição do sistema e “renovação” — ainda que apenas acelere lógicas já em curso. Esse movimento empurra o chamado “mainstream” para o campo da extrema-direita. Partidos “moderados” tentam seduzir o eleitorado reacionário. A mídia corre atrás de cliques e audiência. E políticos “centristas” acreditam, com miopia estratégica, que podem instrumentalizar a extrema-direita em seus próprios projetos de poder. Até mesmo a academia, por vezes, colabora com esse processo. Ao insistir em construir grandes taxonomias diferenciando “extrema-direita” de “direita radical”, explica-se pouco o passado, menos ainda o presente — e normaliza-se muito.

Enquanto a extrema-direita expande seus horizontes, a imaginação política da esquerda se atrofia. A esquerda institucionalizada atua como zeladora de uma democracia em estado terminal, oferecendo apenas cuidados paliativos, sempre na defensiva. Em certos casos, ao tentar dialogar com as bases populares capturadas pelo discurso reacionário, setores progressistas acabam reproduzindo o novo “senso comum” da extrema-direita, acreditando que assim podem se reconectar com parte da sociedade. O resultado é previsível: ao adotar as armas do adversário, minam o próprio projeto emancipador.

Contra esse impasse, Arendt propõe outra via. O “senso da comunidade” é a capacidade de se colocar no lugar do outro e de olhar a realidade com estranhamento renovado. Esse gesto reabre a imaginação política e a pluralidade. A partir dele, germina uma hegemonia contra-hegemônica. Um senso incomum.

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