Estamos numa virada da história da humanidade em que o apagamento é um dos traços característicos de nossa sociedade, momento em que a negligência do humano tornou-se quase um princípio. Para dizer tudo, estamos numa daquelas “Baixas Épocas” que teremos de atravessar, a questão sendo saber como e em direção de quê.
Nenhuma dúvida de que deixamos definitivamente o Neolítico, sua evolução perceptível e seu habitus [modo de ser] lentamente forjado.
As sociedades de mitos, nas quais o passado servia para exprimir no presente o que seria o futuro, estão ultrapassadas; já não temos muita certeza do que somos e praticamente não sabemos mais imaginar o que seremos.
Ninguém me contestará se eu disser que a nostalgia é ainda a metade do pensamento humano, mas por quanto tempo? A humanidade e o que chamamos nossas humanidades têm ainda um sentido? O que resta quando uma sociedade perde a noção mesma de viver em sociedade?
Fim da miragem e das utopias realizáveis, impossibilidade daqui por diante de ligar as coisas entre si. Eis-nos num mundo praticamente irreparável, com o ecossistema definitivamente alterado, no qual o envenenamento avançou e nossas vidas se tornaram adições de momentos individuais. A atividade onanística que o novo mundo virtual provoca implica não ser visto e não encontrar ninguém, embora nos mostremos à distância sem saber para quem. Doravante nossos espaços se somam e se sobrepõem, apenas como instantes que cobrem nossas vidas.
O sonho de onipotência bio-tecno-científica está no auge, impõe-se como uma nova relação com o mundo. Essa mutação radical do político nos tira do modelo grego da democracia para nos fazer experimentar o cotidiano como uma vida em laboratório perpétua, na qual tudo se regula por moratórias sucessivas em nome das normas do que imaginamos ser uma democracia pluralista. E nos vemos espremidos entre programas de dominação, princípios de precaução, ecologia utilitarista, religiões, etnocismo e outros particularismos, tendo como alvo a rentabilidade de qualquer coisa, tudo colocado sob a dependência primeira da economia e das finanças, o capitalismo – como é chamado – fazendo do político “um objeto perdido, algo como um sonho arcaico” a ser rentabilizado. Nesse tempo mundial não nos vemos mais diante dos antigos “coletivos humanos”.
Talvez vocês queiram saber o que foi o Neolítico e aquilo de que nos separamos. Há uma palavra para dizê-lo: “Nós”, apenas nós com nossos corpos e nossas filosofias, nossa habilidade e nossas invenções, nossas relações refletidas com o mundo, nossos olhares, nossas posturas, nossa benevolência para com o outro; todos esses objetos simples que prolongam nosso corpo e são a seiva de nossos escritos, de nossas falas, o sal de nossas invenções, em suma, tudo que nos ligava ao mundo juntos, mesmo se opostos, tudo que nos ligava ao que até então chamamos a humanidade.