Faber ou ludens?

Guilherme Wisnik

O que é que caracteriza o homo sapiens como espécies? De onde vem essa sapiência? Somos sapiens porque somos faber ou porque somos ludens? Isto é: nossa sapiência vem da técnica (do polegar opositor e da capacidade de fabricar instrumentos) ou da fantasia e da imaginação, que inclui a fabulação sobre a existência de outras vidas?

A arqueologia mostra que o surgimento do homo sapiens – ocorrido na África, em torno de 200 mil anos atrás – está acompanhado da presença de objetos deixados junto aos mortos, indicando a imaginação de uma vida além da morte. Daí que a palavra monumento tenha uma origem funerária.

Intrigados diante das pinturas rupestres paleolíticas (Altamira, Lascaux, Chauvet), os historiadores da arte e arqueólogos entenderam que os desenhos de cenas de caça (predominantes no hemisfério norte) indicam a sua função mágica, dado que esses povos não separavam realidade e representação. Os desenhos seriam uma espécie de armadilha para a realidade em comunicação com os espíritos, induzindo a caça real. Aqui o trânsito entre o imaginário e o real é total, e a arte está do lado do ritual, e ainda muito longe de sua função representativa, tal como define muito bem Walter Benjamin em seu famoso ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1936). Muitos outros autores se ocuparam desse problema, tais como Georges Bataille e Georges Didi-Huberman, que associam essas constelações imaginárias ao desejo, mais do que à utilidade técnica.

Na conferência, pretendo fazer a ponte entre essa discussão, eminentemente europeia, e a as pinturas encontradas por Niède Guidon e sua equipe na Serra da Capivara, Piauí. Ali, diferentemente do paradigma europeu, predominam os temas de festa e sexo nas cenas pintadas, aproximando mais ainda essa reflexão do campo do desejo, mas substituindo, de certa forma, seu halo mágico por uma relação mais próxima com o cotidiano. Teríamos, aqui, outras formas de constelação imaginária. Fato que permite pensar se há, ainda hoje, ou não, alguma sobrevivência dessa diferença cultural tão antiga?

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