Imaginário democrático e imaginação em Tocqueville

Marcelo Jasmin

Em viagem aos Estados Unidos nos anos de 1831 e 1832, Tocqueville acreditou ter encontrado, no espaço delimitado pelas treze colônias da Nova Inglaterra, uma experiência mais igualitária do que todas aquelas conhecidas pela historiografia ocidental. Identificou uma dinâmica progressiva que tendia a aproximar as condições sociais de ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres, que constituía uma forma inédita e moderna de sociedade igualitária. Descobriu num imaginário democrático, na crença difusa de que os habitantes daquele país e do novo mundo deveriam ser iguais entre si, o principal fator de produção da democracia, entendida não como uma forma de governo, mas como experiência de vida e forma de sociedade fundada na igualdade entre seus habitantes.

A análise de Tocqueville, apresentada ao longo dos quatro tomos de A Democracia na América (1835-1840), não afirmava a igualdade de fato entre patrões e empregados, ricos e pobres, homens e mulheres, negros e brancos. Importava-lhe investigar os modos pelos quais os habitantes daquele novo mundo compreendiam as várias desigualdades reais como situações temporárias, passíveis de reversão, tornando-as compatíveis com um estado social que desejava ser igualitário. Não se tratava, portanto, de uma teoria naturalista a denunciar, sob o véu do ilusório, a verdadeira desigualdade das relações sociais. A proposição de Tocqueville desenvolvia, ainda que sem a formalizar conceitualmente, a concepção de um imaginário social que era constituidor da ordem democrática e fórmula de sua legitimação. Nesse sentido, o imaginário não era pensado negativamente, como um truque enganador, mas como promotor de normas de comportamento a presidir hábitos e costumes, a gerar condutas igualitárias e dar significado às possibilidades e aos limites da atividade cotidiana. Neste sentido, a democracia para Tocqueville não era primordialmente uma forma de governo, também espírito, cultura e percepção que conformavam positivamente as relações entre os seres humanos.

A partir dessa descoberta Tocqueville pôde imaginar o horizonte futuro da Europa, e de todo o Ocidente, como marcado pela progressiva igualação das condições sociais entre nobres e plebeus, e entre todos os habitantes do mundo moderno, destruindo a hierarquia aristocrática do Antigo Regime e constituindo a novidade da democracia de massas. 

Pelo menos até a emergência do neoliberalismo dos anos 1980, várias das previsões de Tocqueville se concretizaram no Ocidente, no todo ou em parte, como, por exemplo: o fim da escravidão legal, a extensão do igualitarismo na direção de uma sociedade comunista, socialista ou social-democrata, a universalização do voto, a redução da distância entre os direitos de mulheres e homens, e de negros e brancos, ainda que muito aquém do que seria digno, para citar alguns exemplos. 

Com a queda do Muro de Berlim, a dissolução do socialismo real, o fortalecimento dos discursos neoliberal e de extrema direita, em particular no século XXI, as tendências igualitárias foram arrefecidas e seus adversários encontraram caminhos de legitimar a sua redução ou destruição. Estaríamos diante da reversão da tendência multissecular da “revolução democrática” concebida por Tocqueville? Podemos imaginar futuros mais promissores para a igualdade no mundo de hoje?

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