“O que resta de humano diante de radical transformação produzida pela revolução tecnológica?”
Adauto Novaes
Vivemos em uma era de escassez imaginativa. O horizonte político se tornou curto, imediatista, incapaz de projetar futuros e de erguer visões coletivas que inspirem transformação. A revolução tecnológica, ao mesmo tempo que expande nossas capacidades, parece ter nos sequestrado a possibilidade de imaginar o futuro como um espaço de reinvenção. Como Paul Valéry antevia, avançamos no tempo de costas, privados do passado e do futuro, reduzidos a uma eterna administração do presente – uma política sem projeto, uma técnica sem telos.
Mas o que, na tradição brasileira, pode nos ajudar a reconstruir horizontes de expectativa? Queremos aqui explorar duas dimensões na interseção de religiosidade e da política: o catolicismo popular e a figura dos líderes messiânicos.
O catolicismo popular, profundamente enraizado na experiência brasileira, não se limita à doutrina oficial da Igreja, mas se manifesta em práticas e crenças que entrelaçam fé, cultura e resistência. Ele incorpora um cristianismo vivido no cotidiano, onde santos, promessas e rituais não apenas orientam a espiritualidade individual, mas organizam formas de sociabilidade. As festas religiosas, as peregrinações e os cultos domésticos constroem espaços comunitários autônomos, nos quais o sagrado e o político frequentemente se misturam. No sertão nordestino, na Amazônia e em outras regiões do país, essa religiosidade popular criou redes de solidariedade que desafiaram hierarquias e produziram formas alternativas de organização social.
Já os líderes messiânicos emergiram ao longo da história brasileira como figuras que encarnaram projetos de ruptura e de refundação da sociedade. Antônio Conselheiro, ao fundar Canudos, não apenas criou um refúgio para os deserdados, mas propôs uma forma de vida que escapava à lógica do Estado e da propriedade privada. Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, tornou-se um articulador de forças sociais e políticas, construindo uma cidade que era ao mesmo tempo centro de peregrinação e bastião de resistência. Outras lideranças carismáticas, espalhadas pelo Brasil, mobilizaram esperanças e inauguraram novos espaços de pertencimento. Esses movimentos messiânicos não apenas forneciam respostas espirituais para tempos de crise, mas reconfiguravam a relação entre poder, comunidade e futuro.
Se hoje nos parece impossível imaginar um futuro que não seja a mera administração do presente, talvez seja porque esquecemos de olhar para aqueles que, antes de nós, ousaram inventar outras formas de vida. Talvez seja hora de reaprender com essas tradições, de recuperar a capacidade de construir destinos coletivos e reconhecer que todo grande projeto político começa como um ato de imaginação.