A dupla recusa: uma história da imaginação em Paul Valéry

Roberto Zular

Pensando na sequência dos últimos três encontros propostos por Adauto Novaes para o ciclo Mutações, podemos perceber o quanto o “Corpo, o espírito e o mundo”; a “sensibilidade” e as “constelações imaginárias” estão intimamente ligadas. Ao menos se pensarmos em Paul Valéry para quem o espírito é o que surge do contato do corpo com o mundo e que só pode ser vivido pelo modo como atravessamos o mundo sensível. E nessa travessia pela floresta da sensibilidade, como uma espécie de resto mal resolvido, a imaginação se torna um elemento central no modo como nos inventamos e construímos o mundo.

Isto porque, para Valéry, o ser humano é o animal menos adaptado do planeta e é por força dessa inadaptação que somos obrigados a imaginar formas de sobrevivência, criar mundos imaginários internos e externos. Mas o ponto que nos traz aqui é que a imaginação, sozinha, não sustenta a experiência humana. Toda questão é como tornar a imaginação uma força produtiva e não uma fantasia com as quais nos iludimos e nos deixamos iludir o tempo todo.

As imagens são perigosas. Elas podem nos captar em um mundo do qual não conseguimos sair. Tanto as imagens externas e seu apelo desenfreado da nossa atenção, quanto as imagens internas e seu insuportável padrão de repetição e inércia. E Valéry pensava isso antes de conhecer os infinitos gadgets e as redes de imagens digitais que nos assolam.

Para Valéry, a força da imaginação é a sua capacidade de atravessar diversos espaços de experiência, diversas possibilidades sensíveis, diversas linguagens e, também, diversas imagens. É pelo seu caráter heterogêneo (e pela forma como lidamos com essa heterogeneidade) que alcançamos a potência do imaginário.

Isso quer dizer que o imaginário não se opõe à razão, a metáfora não se opõe aos cálculos, a imagem poética não se opõe à ciência, o corpo não se opõe às criações mentais, o interno não se opõe ao externo, o real não se opõe ao imaginário, o material não se opõe ao espiritual. Valéry recusa os dois lados dessas oposições – daí a dupla recusa do nosso título – para nos lançar no mar das imagens em transformação, atravessá-las por muitos mundos e suas infinitas formas de relações. Em suma, é preciso imaginar que não há imaginação sem transformação, sem a ação de transformar as imagens entre si e ir além das imagens para criar “constelações imaginárias”.

Mas para chegar a essas constelações, o caminho de Valéry não foi simples, nem isento de angústias e frustrações. Por isso, procuraremos mostrar a gênese dessa questão desde seus conflitos no campo da poesia entre Baudelaire e Poe, Rimbaud e Mallarmé, que acentuavam as tensões entre as vertentes imaginárias (o “demônio da analogia”) e o cálculo poético (os limites da forma). Veremos como esse conflito levou Valéry a uma grande investigação do imaginário científico e a uma teoria poética do funcionamento mental. É desse embate que nascem também o Leonardo da Vinci valeriano e seu antípoda, M. Teste. Veremos então como isso se transforma com a volta à escrita poética e os grandes ensaios e diálogos da década de 1920 em diante que culminam com o Curso de Poética, onde o pharmakon do imaginário alcança sua equação mais tensa (o fascismo e seu cortejo de imagens bate à porta) e, ao mesmo tempo, refinada e potente.

Mas não se trata de uma história pessoal. Trata-se de pensar o imaginário na história da humanidade, bem como pensar o destino das imagens e da imaginação no século XX e sua complexa relação com a técnica. Por outro lado, ao recusar tanto a fascinação pela imagem quanto seu controle, Valéry inventa formas de existência da imaginação que talvez nos ajudem a pensar seu lugar neste século que vivemos.

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