Paul Valéry dizia ter horror a profecias. Boa parte das modernas filosofias da história, portanto, poderia causar-lhe horror, uma vez que o futuro parecia ser por elas determinado como uma profecia, que atendia pelo nome de teleologia: um Estado Cosmopolita, um Estado da Liberdade, um Comunismo. Haveria um telos, ou seja, objetivo para a história. O pensamento dos séculos XVIII e XIX, com Kant, Hegel e Marx, amarrava o presente ao futuro, que guardava a esperança de melhoria da humanidade: moral, espiritual e materialmente. No começo do século XX, o frenesi tecnológico ainda alimentou tal expectativa esteticamente no Futurismo. Nada disso é mais a nossa situação.
Desde o final do século XX, a crença no futuro entrou em declínio. Politicamente, o marco para isso foi a queda do Muro de Berlim, em 1989, com a sensação, expressa por Francis Fukuyama, de “fim da história”: parecia ter acabado o fôlego para imaginar outros futuros que não fossem apenas o desenrolar das democracias de mercado no capitalismo. Havia conformismo nisso, com um rebaixamento da vontade de transformação do mundo. Por outro lado, contudo, entreviu-se a possibilidade de liberar o presente do determinismo teleológico implícito nas utopias modernas, admitindo a imprevisibilidade das ações humanas, como pensou Hannah Arendt, e sublinhando a dignidade do agora da poesia, como sugeriu Octavio Paz. Poderia começar uma busca do presente, e não do futuro.
Contudo, as consequências desse processo evidenciaram que o presente, sem futuro, tende a se repetir. Paul Valéry afirmou que o mundo moderno aboliu as duas maiores invenções da humanidade: o passado e o futuro. Jonathan Crary aponta um “presente cada vez mais congelado” na lógica do “capitalismo 24/7”, que coloniza o tempo em uma ocupação total. O futuro foi imobilizado na continuidade da identidade projetada do presente, sem força de alteridade para mudá-lo – que precisa, por isso, intimidar a imaginação, isto é, a faculdade de pensar o que não existe como princípio de mudança do que existe. Não se trata de recuperar a teleologia moderna, mas, no espírito de Franco “Bifo” Berardi, de perguntar: o que resta de futuro? Resta não o determinar, e sim imaginá-lo. Daí que a arte possa ser decisiva aqui. Quem sabe, a imaginação possa descolonizar o tempo e pensá-lo em sua alteridade por vir? Quem sabe, a imaginação nos abra a um futuro diferente?