Jorge Luis Borges, em As Ruínas Circulares, nos apresenta a figura de um mago que se refugia em um antigo e arruinado templo do deus do Fogo para ali se dedicar a uma tarefa assombrosa: criar, através de sonhos, um herdeiro ou sucessor, que seria então transferido para o mundo quotidiano. O processo para a substancialização de um ente até então puramente onírico é longo e complexo e, ao terminar, antes de liberá-la no mundo, o feiticeiro infunde em sua criação o esquecimento de sua origem artificiosa. Ser indiferente às chamas – uma vez que o deus do Fogo havia participado de sua constituição – seria a única marca que assinalaria sua origem singular.
Podemos certamente considerar fantástico este relato, mas talvez a introdução de seres imaginários no plano da chamada realidade concreta seja mais comum do que suspeitamos à primeira vista. O paleoantropólogo Steven Mithen, por exemplo, considera que um componente essencial do plexo de habilidades cognitivas que denomina de “inteligência”, é exatamente a capacidade de fabular acontecimentos, isto é, de configurar séries causais plausíveis de eventos, em tudo semelhantes a fatos “reais”, exceto por não terem (quiçá ainda não, ou já não mais) sucedido. Para Mithen, o desenvolvimento da faculdade da inteligência, com módulos operativos variados se superpondo e integrando em diferentes instâncias do sistema nervoso, acabou se conformando como um atributo característico da evolução das espécies humanas. De modo análogo, a neurocientista Susan Greenfield considera que o exercício do que chama de “função fabuladora” pelas crianças pequenas é fator crucial para sua maturação cognitiva, a ponto de recear que o uso intensivo de telas apresentando conteúdos imagéticos arbitrariamente programáveis – dispensando, portanto, qualquer elaboração imaginativa – possa vir a inibir ou mesmo substituir a função fundamental da imaginação tanto para a individuação quanto para a sociabilidade dessas crianças imersas em um ambiente hipertecnificado.
Com efeito, uma das consequências mais marcantes da expansão cumulativa do campo híbrido de avanços científicos e inovações técnicas que hoje chamamos de TecnoCiência foi a de diluir, ou seja, problematizar, as distinções tradicionais entre diferentes fatores formativos de nossa experiência de mundo – sujeito e objeto, orgânico e inorgânico, natural e artificial, senciente e inerte. À medida que um maior entendimento foi sendo obtido sobre as estruturas básicas de diferentes sistemas complexos – atômicos, moleculares, eletrônicos, proteicos, celulares, teciduais, somáticos, neuronais, biológicos, ecossistêmicos, econômicos, sociais, culturais – cresceu, em paralelo, a capacidade de intervenção e apropriação tanto dos elementos quanto das funcionalidades destes sistemas, submetendo-os, em princípio, a ações técnicas – transformações artefactuais – de inúmeros tipos. Continentes epistêmicos inteiros foram sendo descortinados a cada passo dessa exploração; por exemplo, o filósofo David Chalmers famosamente se perguntou; “como é ser um morcego?” Uma vez que nós, humanos, temos nosso campo perceptivo e nossa modalidade de cognição alinhadas de modo a definir nosso “mundo próprio”, como apreender a experiência de mundo de um outro organismo, possuidor de um mundo próprio inteiramente distinto? Ou, como se indagou o escritor Philip K. Dick (no conto que se tornou o roteiro para Blade Runner), sonhariam os andróides com ovelhinhas elétricas? Uma vez que os limites ortodoxos entre os domínios do humano e do não-humano começam a se mesclar em nosso conhecimento, universos inteiros são postos em movimento: se há diversas variedades de “inteligência” – ou seja, formas de cognição e experiência de mundo, quer na Natureza quer, já hoje, na Tecnoesfera – sendo a nossa um exemplar específico, como não investigar as fronteiras e interfaces com o que pode ser, para nós, tanto íntimo quanto heterogêneo? Com o que sonhariam os bancos de coral? Como os formigueiros fariam poesia? Usariam feromônios e sementes de acácia, como no célebre conto de Ursula Le Guin? Que fabulações os dispositivos de Razão Sintética atuais (predecessores dos entes artificiais plenamente inteligentes de um futuro próximo) se contariam para conhecer a si mesmos? A que magicações – a linda palavra que em Portugal designa as brincadeiras de faz-de-conta das crianças – se dedicariam? “Somos feitos de matéria de sonhos”, ensinou Shakespeare; talvez não estejamos sozinhos sob as constelações do vasto céu do imaginário.