“Sobre a astrologia” é o título de um pequeno fragmento escrito por Walter Benjamin em 1932, cujo teor é o de situar a constituição do humanismo na história da cultura. E Benjamin anota: “eu mostrei a intensidade que ela conferiu ao conceito de melancolia.” Sabe-se que o astro da melancolia é Saturno, o planeta da rotação mais lenta, a melancolia associada, assim, à antiga doutrina das influências astrais. E, referindo-se à Melancolia I de Dürer, Benjamin observa: “ Sob a influência jupiteriana, as inspirações perniciosas se tornam benéficas, Saturno se torna protetor das investigações mais sublimes; a própria astrologia cai sob sua jurisdição. Isso permitiu a Dürer formular o projeto de ‘ exprimir nos traços fisionômicos do saturnino também a concentração espiritual divinatória’” Cada planeta é personagem de uma peça de teatro, identificável pelo comportamento de suas posições em uma constelação. Às estrelas do cosmos antigo, imagens da perfeição e luminosidade divinas, se substituíram as bombas aéreas das Guerras da técnica e “novos astros ergueram-se no céu”, os profetas destituídos pela previsão com fins de dominar sob os auspícios do Capital.E Benjamin observou: “O trato antigo com o cosmos cumpria-se[…] na embriaguez [extática] [..]. É o ameaçador descaminho dos modernos considerar essa experiência como irrelevante, como descartável, e deixa-la por conta do indivíduo como devaneio místico em belas noites estreladas”. Assim como o sol realiza sua órbita com sua côrte de planetas, estes, por sua vez, possuem suas luas, de maneira que o sistema solar é uma comunidade. Essa comunidade de destino se rompeu com o traumatismo da Guerra que determinou um antes e um depois, nada tendo permanecido das paisagens do final do século XIX, os astros, também eles, agora em exílio, no céu agora pelas explosões bélicas. Razão pela qual, Benjamin encontra em A Eternidade pelos Astros de Auguste Blanqui uma história política do céu e diagnóstico do presente que enclausurou o tempo e a ação humana. A técnica autonomizada com respeito aos indivíduos, submete-os a “processos sem sujeito”. Sua contrapartida são imagens dialéticas, portadoras de um “ princípio esperança.”